Uma embalagem de papelão ondulado que utiliza o carvacrol — composto natural presente no orégano — para retardar a deterioração de morangos foi desenvolvida por pesquisadores do Brasil e da França. De liberação controlada, o composto incorporado à estrutura multicamada do papelão triplicou o tempo de vida do fruto: de três para nove dias sob refrigeração, apresentou ação antimicrobiana e abre caminho para a substituição de embalagens plásticas e a redução do desperdício de alimentos.
O estudo envolveu cientistas da Embrapa Instrumentação (São Carlos/SP), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade Grenoble Alpes (UGA), na França. A iniciativa, à base de material celulósico, biodegradável e reciclável, está relacionada à discussão sobre perdas e desperdício de alimentos — tema do Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdício de Alimentos, celebrado em 29 de setembro.
Como funciona a tecnologia
À frente do estudo de um ano na Embrapa Instrumentação, o pesquisador Marcos David Ferreira explica que o desenvolvimento consistiu em combinar diferentes papéis de revestimento nas superfícies externa e interna da caixa, com a impregnação da camada intermediária do papelão ondulado com o carvacrol.
A inovação não está apenas no uso do carvacrol, mas na forma de incorporá-lo ao papelão: o desafio era controlar a velocidade com que o composto deixava a estrutura multicamada e chegava ao ambiente ao redor dos morangos — a chamada liberação controlada.
O teste: 120 morangos, 9 dias, 10 °C
A tecnologia foi avaliada em morangos da cultivar San Andreas, produzidos em Bom Repouso (MG). Os frutos — no total de 120 — foram acondicionados em bandejas de papelão ativo e armazenados durante nove dias, a aproximadamente 10 °C.
Além de testar a atividade antifúngica em laboratório, os pesquisadores avaliaram a tecnologia em condições reais de armazenamento, combinando análises microbiológicas e físico-químicas e usando uma análise de agrupamento para observar, de forma integrada, a evolução da qualidade dos morangos ao longo do experimento.
Ação antimicrobiana contra o fungo da podridão-mole
Um dos principais desafios da conservação do morango é o crescimento de fungos, como o Rhizopus stolonifer, agente causador da podridão-mole. Os resultados em laboratório (in vitro) mostraram que o papelão com carvacrol foi capaz de inibir o desenvolvimento deste fungo — e o efeito foi observado mesmo após 14 dias de armazenamento do material ao ar livre, em temperatura ambiente.
As análises confirmaram que os morangos mantidos nas embalagens ativas preservaram melhor a vivacidade da cor vermelha, a firmeza da polpa e os parâmetros de acidez e sólidos solúveis, desacelerando o processo natural de envelhecimento do tecido do fruto.
As melhores configurações retardam a liberação o suficiente para permanecerem eficazes durante o armazenamento, ajudando a atrasar a podridão fúngica e a preservar as características essenciais de qualidade da fruta. — Ramon Peres Brexó, pós-doutorando da equipe
A principal conclusão do estudo é que a embalagem multicamadas com carvacrol funciona como uma embalagem ativa para morangos — e que a estrutura do revestimento determina a durabilidade do efeito antimicrobiano.
Por que o morango é tão perecível
Ferreira explica que o morango está entre os frutos mais suscetíveis à deterioração após a colheita, devido ao consumo in natura e à alta perecibilidade:
A elevada atividade metabólica, a sensibilidade a danos durante o transporte e, principalmente, o desenvolvimento de fungos contribuem para reduzir sua vida útil. Esse processo representa um desafio para a cadeia de produção e distribuição e pode aumentar o desperdício de alimentos.
A prova de conceito abre caminho para que produtores e distribuidoras de frutas e hortaliças reduzam significativamente o desperdício alimentar ao longo de toda a cadeia logística, garantindo produtos mais frescos e seguros ao consumidor final.
O fator exportação: nova legislação europeia
A embalagem plástica tradicional na União Europeia passou por novas regras desde agosto de 2026, com a entrada em vigor do novo Regulamento relativo a Embalagens e Resíduos de Embalagens (PPWR). A medida prevê a eliminação gradual das embalagens plásticas para hortifrútis, com o objetivo de reduzir a geração de resíduos.
No Brasil, ainda não existe essa regulamentação — mas, pensando em exportação, os países devem seguir as regras do importador, e essa é uma tendência que deve se espalhar para outros mercados. A substituição do plástico pelo papelão surge como alternativa concreta para alguns produtos.
Próximos passos
Os resultados abrem novas perspectivas para o uso do papelão ondulado ativo na conservação de morangos após a colheita. A próxima etapa da pesquisa envolve o aprofundamento dos estudos sobre a liberação e a difusão do carvacrol no material, contribuindo para o aprimoramento da tecnologia.
A pesquisa foi apoiada pela Cellulose Valley Chair da Grenoble INP Foundation (França, Institut Carnot PolyNat), Fapesp, Capes e CNPq.
O que isso significa
- Para o produtor: menos perda pós-colheita em uma das frutas mais perecíveis do hortifrúti — mais fruta vendável na cadeia;
- Para o mercado exportador: o papelão ativo atende à nova legislação europeia (PPWR), que elimina gradualmente o plástico no hortifrúti;
- Para o consumidor: morangos mais frescos por mais tempo e menos desperdício de alimento.